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A Viagem Ancestral da Tartaruga-de-Couro

08/09/2026 - O que análises de DNA revelam sobre o passado ancestral da tartaruga-de-couro ↓

A tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é a maior espécie de tartaruga marinha do planeta. Antiga e resiliente, ela pertence ao grupo Dermochelyidae, que divergiu das outras tartarugas marinhas (Cheloniidae) há mais de 100 milhões de anos.

Atualmente, as tartarugas-de-couro estão presentes nos oceanos Pacífico, Índico e Atlântico, com mais de 650 áreas de desova reconhecidas. Diante disso, resta a pergunta: como essa espécie ocupou os diferentes oceanos do planeta?

E será que essa distribuição sempre foi a mesma?

A resposta a essa pergunta pode estar registrada em seu DNA mitocondrial.

Sequências específicas do DNA mitocondrial herdadas de um único progenitor, chamadas de haplótipos, permitem investigar a origem e a conectividade entre populações. Ao comparar esses padrões genéticos, os cientistas conseguem encontrar pistas sobre os caminhos percorridos por diferentes populações no passado e, assim, reconstruir possíveis rotas de colonização ao longo de milhões de anos.

Foi a partir dessa abordagem que cientistas brasileiros, sob supervisão da Profa. Dra. Sarah Vargas da Universidade Federal do Espírito Santo, revisaram os haplótipos de tartarugas-de-couro depositados no banco de dados global. A reclassificação e a padronização propostas pelos autores permitiram integrar e reavaliar os dados já disponíveis, tornando possível reconstruir a história evolutiva da espécie com maior precisão.

A reconstituição da distribuição geográfica ao longo do tempo confirmou que as linhagens contemporâneas das tartarugas-de-couro originaram-se no Oceano Pacífico há cerca de 4,86 milhões de anos.

Mas essa foi apenas a primeira etapa da viagem.

A partir desse ponto central, a espécie se dividiu geneticamente em duas grandes linhagens, que seguiram caminhos evolutivos distintos.

A primeira linhagem iniciou sua jornada no Oceano Pacífico, mas seguiu um caminho marcado por sucessivas mudanças em sua distribuição entre os oceanos. Ao longo de sua história, esteve associada principalmente ao Atlântico, mas também estabeleceu conexões posteriores com o Pacífico e o Índico. Essa trajetória deixou diferentes marcas no DNA e resultou em uma linhagem de ampla distribuição geográfica, cujos haplótipos estão hoje presentes em diversas regiões oceânicas.

Já a segunda grande linhagem seguiu uma rota evolutiva diferente, marcada por separações causadas por barreiras geográficas: primeiro entre as regiões do Pacífico e do Índico e, posteriormente, entre o Pacífico e o Atlântico. Esses períodos de separação favoreceram o surgimento de assinaturas genéticas próprias, gerando um haplótipo que hoje só existe no Índico e outros três atualmente restritos ao Atlântico.

E o Atlântico guarda outra pista importante dessa história.

O Oceano Atlântico foi colonizado pelas tartarugas-de-couro em dois momentos distintos. Um deles ocorreu há cerca de 2,5 milhões de anos, quando o fechamento do Istmo do Panamá rompeu a conexão marinha direta entre o Pacífico e o Atlântico e reestruturou a circulação oceânica global.

Outro momento ocorreu há cerca de 1 milhão de anos e foi associado aos ciclos glaciais, que alteraram as condições ambientais e a dinâmica das correntes oceânicas, favorecendo novos processos de dispersão.

Assim, o DNA atual das tartarugas-de-couro funciona como um verdadeiro diário de bordo, registrando, em suas sequências genéticas, pistas sobre as antigas viagens, dispersões, retornos e períodos de isolamento ao longo de sua história evolutiva.

Mas reconstruir essa viagem não é apenas olhar para o passado. As informações genéticas também ajudam a proteger o futuro da espécie. Esse mapeamento detalhado permite uma melhor interpretação dos dados genéticos, favorecendo, por exemplo, a identificação da origem de tartarugas marinhas encontradas em áreas de alimentação, longe de seus locais de nascimento.

Atualmente, sabe-se que as áreas de alimentação do Atlântico Sudoeste recebem indivíduos provenientes de diversas regiões, principalmente da África Ocidental. Isso significa que a preservação em uma região afeta diretamente a população de outra, exigindo cooperação multinacional nas políticas de conservação da espécie.

Quando se torna possível rastrear a origem e os caminhos percorridos pelas tartarugas-de-couro, as estratégias de conservação deixam de ser restritas a uma única região e passam a ser globais e integradas. Assim, é necessário somar esforços para garantir que esse gigante pré-histórico continue a cruzar os mares pelos próximos milhões de anos!

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